Diversidade e inclusão no campo da saúde

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Em 2014, fui convidada pelo Jornal Record News para conversar com o jornalista Heródoto Barbeiro sobre a epidemia de Ebola que assolava o oeste africano. Nesta foto #tbt feita durante o intervalo, falávamos sobre a minha formação em “Global Health Diplomacy” no The Graduate Institute of International Studies and Development Studies em Genebra e a recém-criada disciplina de saúde global que introduzi na graduação de medicina na PUC-SP.

Desde então, a saúde global passou a ocupar um papel central na minha vida profissional.

Na pandemia de covid-19, o reconhecimento de fatores externos à saúde, mas que impactam a política sanitária nacional, como comércio internacional, propriedade intelectual/patentes, política externa e direitos humanos, ficou cada vez mais evidente, assim como os interesses e jogos de poder de diversos atores que atuam no campo da saúde.

A compreensão da interdisciplinaridade entre a medicina, a saúde pública, o direito, a economia da saúde, as relações internacionais, a antropologia, o setor privado e o humanitarismo, é essencial para estarmos à altura dos desafios que devemos enfrentar.

O mais recente exemplo desta interseccionalidade que deverá impactar o campo da saúde é a promulgação pelo governo brasileiro, da Convenção Interamericana contra o Racismo, a Discriminação Racial e Formas Correlatas de Intolerância da Organização dos Estados Americanos (OEA), publicada no Diário Oficial da União nesta terça-feira, dia 11/1. Assim, a Convenção passa a ser o quarto tratado internacional de direitos humanos a fazer parte da nossa Constituição.

De acordo com o texto da Convenção, a discriminação racial pode se basear em raça, cor, ascendência ou origem nacional ou étnica e pode ocorrer a partir de "qualquer distinção, exclusão, restrição ou preferência, em qualquer área da vida pública ou privada, com o propósito ou efeito de anular ou restringir o reconhecimento, gozo ou exercício, em condições de igualdade, de um ou mais direitos humanos e liberdades fundamentais consagrados nos instrumentos internacionais aplicáveis aos Estados partes".

É preciso ter coragem para jogar luz às sutilezas do racismo velado nos campos da saúde e da medicina e pensar coletivamente em possíveis soluções para este enorme desafio que é a desigualdade.

O racismo na saúde vai muito além dos profissionais. É uma questão estrutural e institucional, que influencia desde a formação dos médicos até a construção e aplicação de políticas públicas em torno do Sistema Único de Saúde.

Os dados falam por si:

Em relação à saúde mental, há estudos recentes que evidenciam a discriminação e o racismo como fatores estressores e que afetam a saúde mental e física por meio de mecanismos estruturais e institucionais enraizados na nossa sociedade.

Na literatura médico-científica, há apenas quatro pesquisas que relacionam o racismo à perda cognitiva e de memória. Um estudo elaborado por epidemiologistas da Universidade de Boston talvez seja o mais impactante, pois teve início em 1995 e continua acompanhando os participantes. O estresse crônico, associado ao comprometimento cognitivo e ao volume reduzido na área de memória do cérebro foram observados em mulheres que sofreram discriminação ao longo da vida. O risco de mulheres negras desenvolverem Alzheimer ou qualquer outra perda cognitiva foi 2.6 vezes maior naquelas que sofrem estresse crônico decorrente do racismo recorrente.

Janet Shim, em seu artigo publicado em 2010, intitulado “Cultural Health Capital: A Theoretical Approach to Understanding Health Care Interactions and the Dynamics of Unequal Treatment”, afirma que "as amplas desigualdades sociais operam nas interações paciente-profissional e moldam o conteúdo e o tom dos encontros de saúde".

Da mesma forma, Imani Perry descreve que as narrativas raciais permeiam o ensino e a prática da medicina e da ciência, mesmo nos esforços para "incluir" grupos marginalizados.

Ruha Benjamin, professora na Universidade de Princeton, em seu artigo publicado em 2017 “Cultura Obscura: Race, Power, and Culture Talk in the Health Sciences" considera que "no contexto da saúde pública, também podemos observar como a cultura molda a política de saúde em um ciclo de feedback dinâmico que muda drasticamente dependendo de como as populações-alvo são representadas".

Para que haja, de fato, a internalização da regra jurídica da OEA no campo da saúde, será imprescindível enfrentar os determinantes sociais e políticos da saúde e expandir a formação médica para outros campos do conhecimento, como por exemplo, D&I.

A inovação em saúde não pode estar restrita somente ao mundo digital.

Para o médico Donald Berwick, do Institute for Healthcare Improvement de Boston, que escreveu sobre os determinantes morais da saúde durante a pandemia de Covid-19, considera que "nada vai acontecer a menos que um ataque ao racismo e a outros determinantes sociais da saúde seja motivado por uma aceitação dos determinantes morais da saúde, incluindo, mais crucialmente, um forte senso de solidariedade social".

Eu não sabia que o curso sobre direitos humanos e direito internacional público que fiz na Universidade de Genebra em 2013 faria tanto sentido na minha trajetória. O processo de deixar de ensinar neurovascular para compartilhar os saberes da saúde global não foi fácil e por vezes, muito criticado. Ouvir sobre a interdisciplinaridade da professora, artista e psicanalista portuguesa Grada Kilomba me ajudou a aceitar a minha sem culpa.

Eu me sinto a cada dia mais engajada com a difusão, educação e compreensão das dimensões do racismo estrutural e velado, relacionadas à saúde das pessoas, aos direitos humanos e aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. Minha visão sobre o tema certamente é enviesada, pois se baseia na minha história pessoal como mulher negra neurocirurgiã no Brasil, no conhecimento acadêmico de saúde global e em direitos humanos.

Pretendo chamar a atenção para a importância da valorização da diversidade como fator decisivo para a construção de uma sociedade justa e sustentável e estimular a adoção de ações em favor da inclusão e do respeito a segmentos com histórico de vulnerabilidades e desvantagens na sociedade brasileira.

Que eu possa trocar com o maior número de seres em 2022. Que a ética proposta nas obras de bell hooks invada cada espaço por onde estivermos e que não deixemos ninguém para trás.

"Leave no one behind" é o lema da Agenda 2030 das Nações Unidas.

Empresas que me fizeram confiança

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Carolina Loureiro
Neurocirugiã, professora e terapeuta com vasta e sólida trajetória na medicina na França e no Brasil. Pensadora da neurociência como fonte de conhecimento para o bem-estar e melhoria da saúde mental e equilíbrio emocional do ser humano, pratica a medicina do estilo de vida.

Formada em Saúde Global e em Direitos Humanos em Genebra, abraça a causa da diversidade e da equidade de gênero.