A saúde dos jovens

Os adolescentes constituem um grupo prioritário para promoção da saúde em todas as regiões do mundo, em razão dos comportamentos que os expõem a diversas situações de riscos para a saúde. Nesse período de transição da infância para a vida adulta, ocorrem intensas transformações cognitivas, emocionais, sociais, físicas e hormonais. Nessa época da vida, crescem a autonomia e independência em relação à família e a experimentação de novos comportamentos e vivências. Alguns desses comportamentos e vivências representam importantes fatores de risco para a saúde, como o tabagismo, o consumo de álcool, a alimentação inadequada, o sedentarismo e o sexo não protegido.

Esses fatores aumentam o risco de acidentes e violências, além de contribuírem para o desenvolvimento futuro de doenças crônicas não transmissíveis, como as cardiovasculares, diabetes e câncer.

Existe uma consciência crescente de que as DCNT, como por exemplo, a obesidade e os distúrbios mentais, são fatores significativos que afetam a saúde e o bem-estar dos jovens:

 

  1. O sobrepeso e a obesidade também são fatores de risco para doenças crônicas não-transmissíveis e parte da minha pesquisa sobre DCNT revelou que 32% das crianças entre 5 e 9 anos de idade tem sobrepeso ou obesidade na região sul da cidade de Campinas. Apesar da obesidade ter causa multifatorial, alguns dados alarmantes podem piorar este cenário:

- 23,4% dos jovens brasileiros com mais de 18 anos consomem refrigerantes cinco dias por semana;

- jovens brasileiros consomem três vezes mais açúcar (150g/d) e 2,5 mais sódio (12g/d) do que a Recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS);

- apenas 36,8% da população consome frutas e legumes cinco dias por semana.

 

  1. O Brasil é o país com a maior taxa de pessoas com transtornos de ansiedade no mundo e o quinto em casos de depressão. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, um em cada cinco adolescentes enfrenta desafios de saúde mental. A instituição estima que metade de todas as doenças mentais começa aos 14 anos.

Por sua vez, relações familiares e escolares bem estabelecidas e atitudes de autocuidado representam importantes fatores de proteção à saúde física e emocional, presente e futura.

Portanto, conhecer como vivem e se comportam os escolares possibilita mensurar a magnitude e a distribuição de importantes fatores de risco e proteção à saúde atual e futura, essencial para orientar estratégias voltadas para a saúde dos jovens.

Por essas razões, a Organização Mundial da Saúde (OMS) iniciou em 1982 um sistema de vigilância baseado em inquéritos sobre o comportamento em saúde de escolares (Health Behaviour in School-aged Children - HBSC) em três países europeus.

Existem outros dois sistemas de vigilância (americano: Youth Risk Behavior Surveillance System- YRBSS e brasileiro: Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar -PeNSE) que reuniram dados de inquéritos realizados com jovens de faixas etárias específicas, em ambiente escolar, onde incluíam informações sobre saúde física, emocional e psicológica; influência da família, da escola, dos pais e de fatores socioeconômicos. As informações produzidas eram comparáveis entre os países participantes e têm auxiliado gestores, profissionais de saúde e educadores na modificação de currículos e reestruturação de programas de saúde voltados para essa faixa etária.

Importância da pesquisa sobre a saúde dos jovens

O estudo do comportamento em saúde de escolares (Health Behaviour in School-aged Children- HBSC) realizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) fornece informações importantes sobre os comportamentos relacionados à saúde dos jovens. Sua metodologia única facilitou o envolvimento com centenas de milhares de jovens em muitas partes do mundo desde sua criação em 1983, construindo uma base de dados ao longo do tempo que descreve padrões e questões relevantes para sua saúde e bem-estar.

A pesquisa procura entender a saúde dos jovens em seu contexto social - em casa, na escola, com a família e os amigos.

Os jovens podem ter um vasto leque de oportunidades em relação à saúde, educação, profissão, engajamento social, descoberta e realização. Mas há também um mundo de riscos que pode afetar sua capacidade de alcançar a saúde plena, tanto agora quanto no futuro, reduzir suas oportunidades de educação e trabalho e levar ao isolamento e à frustração.

A pesquisa da HBSC é um recurso crucial no aprofundamento da compreensão dos determinantes sociais que afetam a saúde e o bem-estar dos jovens, pois considera contexto social, comportamentos de saúde e comportamentos de risco.

Embora haja muito o que comemorar no status de saúde e bem-estar de muitos jovens, outros continuam a experimentar problemas reais e preocupantes em relação a questões como sobrepeso e obesidade, autoestima, satisfação com a vida, uso indevido de substâncias e bullying.

As vozes dos jovens podem direcionar esforços para abordar os determinantes sociais da saúde de uma maneira que tenha efeitos positivos sobre a saúde e o futuro deles.

À medida que o plano de ação para implementar a estratégia da OMS para a prevenção de DCNT avança, todos devem permanecer vigilantes para proteger os jovens do impacto de seus fatores de risco, como consumo de tabaco e álcool, sedentarismo, alimentação não saudável e ansiedade excessiva.

Atingir as metas acordadas para reduzir o impacto dos distúrbios mentais e a mortalidade prematura por doenças crônicas em 25% até 2030, como parte da agenda dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, tem que ser o compromisso de cada um de nós.

A convite de empresas e instituições não-governamentais interessadas em promover a saúde e bem-estar de seus colaboradores, tenho buscado engajar as pessoas e instituições no cuidado individual, estimulando uma rotina de gerenciamento de grupos de risco e promovendo a saúde mental e bem-estar através de conceitos baseados na neurociência.

Estratégias

 

  • elaborar e implementar soluções duradouras para a prevenção de doenças crônicas e psicossociais e seus fatores de risco no ambiente corporativo e /ou escolar através de base de dados digital e de indicadores de saúde,

 

  • promover a saúde e bem-estar com redução do estresse de colaboradores e alunos através dos conceitos recentes da neurociência e da medicina “mente e corpo” para gerenciamento do estresse,

 

  • empoderar pessoas através da educação em saúde e do autocuidado de grupos de risco para que construam melhores hábitos que repercutam em seu bem-estar pessoal, escolar e profissional, gerando melhores resultados,

 

  • reduzir o impacto econômico e social das doenças crônicas e das doenças psicossociais nas empresas, escolas e universidades.

 

Obs.: O Estatuto da Criança e do Adolescente prevê autonomia do adolescente para tomar iniciativas, tais como responder a um questionário que não ofereça riscos a sua saúde. Caso a escola tenha interesse na pesquisa sobre o estado de saúde dos adolescentes, eu elaboro os indicadores que visem subsidiar políticas de proteção à saúde para esta faixa etária. procuro optar pela autonomia do adolescente em definir sobre sua participação na pesquisa. O estudante pode decidir em participar, ou não, e poderá responder o questionário ou apenas parte do mesmo. As informações do aluno ficam confidenciais e não-identificadas, bem como as da escola.

Os temas  abordados nos seminários e/ou questionários com os adolescentes são:

TEMA 1: FAMILIA, AMIGOS, ESCOLA

TEMA 2: ESTADO DE SAUDE E BEM-ESTAR

TEMA 3: STATUS PONDERAL E IMAGEM CORPORAL

TEMA 4: ALIMENTACAO

TEMA 5: CONSUMO DE SUBSTANCIAS

TEMA 6: ATIVIDADE FISICA

TEMA 7: MUNDO DIGITAL E TELAS

TEMA 8: AMOR E SEXUALIDADE

TEMA 9: COMPORTAMENTOS AGRESSIVOS

O objetivo principal dos encontros é a educação em saúde baseada em evidências através de dados estatísticos relevantes para a conscientização dos jovens.

Há participação ativa e discussão com casos reais para que eles mesmos construam seus valores e autoconhecimento.

Conceitos baseados na neurociência e resultados de pesquisa em estudo cerebral por imagem são utilizados para demonstrar como os jovens podem fazer escolhas mais saudáveis e como podem ter bem-estar.


Dra Maria Carolina Loureiro

Médica neurocirurgiã formada pela Universidade de Paris XI, trabalha com doenças cérebro-vasculares desde 2005. Sua principal atividade clínica é voltada para tratamento de doenças neurológicas, com base nos princípios da Slow Medicine. Tambem é palestrante e desenvolve temas relacionados à suas pesquisas em doenças crônicas e na promoção da saúde física e mental. Maria Carolina se especializou em Saúde Global numa das instituições de ensino de maior prestígio no mundo, The Graduate Institute of International and Development Studies.