A importância da gestão da saúde no ambiente corporativo

O Brasil, como as demais economias emergentes, enfrenta um crescente aumento de doenças crônicas não-transmissíveis (DCNT). As DCNT respondem por 74% das causas de mortalidade no país. Seus fatores de risco comuns e evitáveis são: dieta não saudável, sedentarismo, tabagismo e consumo excessivo de álcool.

As DCNT são: doenças cardiovasculares (infarto do miocárdio e AVC), diabetes, câncer, doenças respiratórias crônicas e doenças neuropsiquiátricas (por ex. ansiedade, depressão, síndrome de burnout ou esgotamento emocional e síndrome do pânico).

Em Campinas, apesar de apresentar um IDH elevado (0,81) em relação à média brasileira (0,73), 80% dos pacientes de Campinas não controlam o nível de açúcar no sangue, colesterol e pressão arterial regularmente. Na cidade, as DCNT são responsáveis por 86% das causas de mortalidade e as minhas pesquisas sobre o impacto socioeconômico das DCNT no nível local e global, revelaram que 32% das crianças entre 5 e 9 anos de idade tem sobrepeso ou obesidade na região sul da cidade. O sobrepeso e a obesidade são fatores de risco para doenças crônicas não-transmissíveis.

Um dos grandes desafios globais em saúde também está relacionado aos efeitos nocivos do estresse nos indivíduos, nas empresas e na comunidade. O estresse crônico predispõe as pessoas a um maior risco para ter síndrome metabólica, caracterizada por aumento da pressão arterial, diabetes, ganho de peso e queda da imunidade. Há evidências comprovadas cientificamente que o estresse crônico é um dos fatores envolvidos na gênese das DCNT.

O Brasil é o país com a maior taxa de pessoas com transtornos de ansiedade no mundo e o quinto em casos de depressão. Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), 9,3% dos brasileiros têm algum transtorno de ansiedade e a depressão afeta 5,8% da população. A OMS estima que em 2020, a depressão será a doença mais incapacitante no mundo. Certamente pesam nesse cenário, fatores socioeconômicos e ambientais, como as políticas de austeridade econômica, o desemprego e o estilo de vida nas grandes cidades. 

Por que fazer a gestão da saúde no ambiente corporativo?

Uma pesquisa realizada pela West Virginia Medical Schooidentificou que:

  • 12% das despesas das empresas no Brasil é com planos de saúde,
  • 86% desse custo decorre de pacientes crônicos, como por ex. diabetes e obesidade,

 

O estudo “Gestão de Saúde Corporativa” realizada em 2017 pela ABRH no Brasil, concluiu que:

  • 51% das empresas não tem programas estruturados para gerenciamento de grupos de risco como diabéticos, hipertensos, etc,
  • As doenças crônicas costumam ser as mais custosas tanto para os usuários como para os planos de saúde,
  • 40% das corporações pagam integralmente os custos com consultas e exames,
  • Para 81% das empresas, os custos com planos de saúde subiram muito acima da inflação entre 2008 e 2016.
  • Neste período, o índice de variação do custo médico-hospitalar aumentou 237,77%.

Segundo a Previdência Social, em 2016, cerca de 75,3 mil trabalhadores foram afastados em razão da depressão. A busca por atendimentos médicos para depressão aumentou 54% no Brasil e as ausências do trabalho pela doença duraram, em média, 211 dias.

Em março de 2019, o estudo realizado por Minami e Nardi do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) procurou descrever as diferenças nos hábitos alimentares e práticas de exercícios físicos entre beneficiários e não beneficiários de planos privados de seguro de saúde no Brasil. A pesquisa revelou que:

  • 94.3% dos beneficiários tem hábitos alimentares não saudáveis,
  • 90.6% substituem refeições por sanduíches, salgados e pizzas,
  • 56.2% não praticaram exercício físico ou esporte nos últimos 3 meses.
  • A situação evidencia a necessidade de colocar as DCNT e os transtornos mentais no topo da lista de prioridades de políticas públicas e das empresas.

As estimativas recentes da Organização Mundial de Saúde indicam um crescimento de 17% dos óbitos causados por DCNT nos próximos dez anos e perda de produção acumulada estimada de US$ 47 trilhões ao longo das próximas duas décadas. Uma grande parte das doenças não-transmissíveis - até 80% das doenças cardíacas, derrame e diabetes, e quase 40% dos casos de câncer - são potencialmente evitáveis, abordando os quatro principais fatores de risco.

Para as empresas, além dos custos diretos com planos de saúde, há ainda os custos indiretos, como afastamentos, absenteísmo e queda de produtividade. E esse passivo é tão oneroso quanto as despesas com a sinistralidade das operadoras. Por isso, busco engajar as pessoas e empresas a estabelecer uma rotina preventiva e mais abrangente do que a saúde ocupacional.

Para que investir na gestão da saúde nas empresas?

O engajamento com saúde e o bem-estar dos funcionários estão finalmente tomando um lugar central no mundo dos negócios. Está cada dia mais evidente a importância da saúde mental e sua estreita relação com a saúde física. Profissionais de alta performance (sejam atletas ou executivos de grandes empresas) reconhecem e investem cada vez mais na medicina mente e corpo ou na medicina de estilo de vida.

A pesquisa sobre Bem-Estar da Gallup-Sharecare realizada com mais de 2 milhões de pessoas revelou que pessoas com maior bem-estar apresentam melhor desempenho e tem custos menores nos cuidados com a saúde. Além disso, as empresas que investiram em gestão digital e integrada de saúde, incluindo gerenciamento do estresse por 12 meses, puderam reduzir significativamente os custos médios com saúde. O estudo também mostrou a redução do custo anual de sinistros em até 3.5 vezes com a população com maior índice de bem-estar.

As empresas precisam avaliar as causas de afastamento e de absenteísmo de seus colaboradores, definir grupos de risco segundo fatores de risco, a fim de gerar dados estatísticos que possam auxiliar na implementação de programas de gestão da saúde.

O estudo publicado pelo Instituto Health Enhancement Research Organization em 2016 demonstra a ausência de uma análise eficiente das causas de absenteísmo por parte das empresas no Brasil. Os dados revelaram que 77% das empresas avaliadas não possuem indicadores de absenteísmo e apenas 17% desenvolvem ações preventivas em saúde.

Toda uma gama de possibilidades para promover a saúde no ambiente corporativo com o intuito de reduzir o impacto econômico das doenças crônicas e mentais é economicamente viável e várias soluções são bastante acessíveis.

Como fazer a gestão da saúde nas empresas?

Para obter bons resultados, é preciso começar pela avaliação do estado de saúde física e mental da empresa e seus colaboradores através de indicadores de saúde e da implementação de base de dados digital.

Para reduzir gastos com saúde, é vital empoderar pessoas através da educação em saúde, do gerenciamento do estresse e do autocuidado de grupos de risco que irão repercutir no bem-estar pessoal e profissional.

A parceria e a interdisciplinaridade entre assessores médicos e gestores de Recursos Humanos é a chave do negócio. A médio prazo, não há como deixar de lado o monitoramento da eficácia das medidas de gestão em saúde nas empresas.

Se você quiser compartilhar soluções, ideias ou conhecer mais detalhes sobre este campo de estudo e atuação, não hesite em me contactar.


Dra Maria Carolina Loureiro

Médica neurocirurgiã formada pela Universidade de Paris XI, trabalha com doenças cérebro-vasculares desde 2005. Sua principal atividade clínica é voltada para tratamento de doenças neurológicas, com base nos princípios da Slow Medicine. Tambem é palestrante e desenvolve temas relacionados à suas pesquisas em doenças crônicas e na promoção da saúde física e mental. Maria Carolina se especializou em Saúde Global numa das instituições de ensino de maior prestígio no mundo, The Graduate Institute of International and Development Studies.